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09/06/2016

Maquiavel e a manutenção de uma hegemonia esportiva

Quanto mais espetacularizados, massificados, mobilizadores de grandes grupos sociais e angariadores de grandes investimentos os esportes são, há a necessidade de se obter uma hegemonia esportiva. Isso vale para os atletas, equipes, comissões técnicas, dirigentes e inclusive para os meios de comunicação. Entretanto, mais difícil do que alcançar a hegemonia esportiva é mantê-la e por isso, me pauto em Maquiavel e seus fundamentos sobre Virtú e Fortuna para discorrer desse processo dentro do âmbito esportivo.

Maquiavel disserta sobre Virtú e Fortuna na sua obra “O Príncipe” no qual é considerada uma manual de manutenção do poder para monarcas do século XVI. Porém, assim como “O capital” de Marx, essa obra pode ser considera muito contemporânea pois houve e há muitas similaridades entre os governantes atuais e os príncipes antigos na forma de governar seus reinos, sociedades e Estados-nação.

Desta forma, para se manter no poder, os governantes necessitam de um conjunto de qualidades e possibilidades, seja elas quais forem (boas ou más ações), cuja a aquisição o governante passa achar necessária, a fim de manter seu Estado e realizar grandes feitos. Ou seja, a pessoa que governa necessita de Virtú para vencer as incertezas e imprevisibilidades que cercam e ameaçam o seu governo, no qual essa força incerta, que pode ser natural ou humana, é caracterizada como Fortuna (destino). Assim, o dualismo entre Virtú e Fortuna é tido como uma questão de legitimidade e manutenção do poder, ao passo que quanto maior a Virtú (qualidade em manter o poder) menor ou maior controle sobre a Fortuna (imprevisibilidades que ameaçam essa manutenção).  

Levando essa ideia de manutenção do poder por Maquiavel ao esporte, vemos que a busca do poder, que neste caso é a conquista de títulos, campeonatos e etc. se revela muito mais frequente do que a manutenção do mesmo, pelo fato de tanto que o esporte é cercado por imprevisibilidades (Fortuna) e por ser, às vezes, uma roda da sorte. E é menos frequente a manutenção de uma hegemonia esportiva, que neste caso é a conquista de uma série de títulos em um determinado período, dado a dificuldade que se é de controlar os aspectos imprevisíveis do jogo (condições climáticas, local, torcida, fatores psicológicos e sociais, influência da arbitragem, adversidades inesperadas como falhas momentâneas e tantas outras) mesmo para aqueles que possuem qualidades técnicas, táticas, físicas e psicossociais (Virtú) para controlar o destino.



Temos como exemplo de manutenção de hegemonia: o Santos de Pelé; a Itália da década de 1930; o Brasil no final da década de 50 à década de 70; o Barcelona de Messi; o Palmeiras da década de 90; Boca Juniors no começo dos anos 2000; Lakers e Celtics na NBA; Chicago Bulls de Jordan; o Flamengo na NBB; Tiger Woods no golf; Federer no tênis; Schumacher na F1; Boston Red Sox no beisebol; Nova Zelândia no rugby; Brasil no vôlei de quadra e areia; Michael Phelps na natação; Usain Bolt no atletismo; Cuba no boxe; Índia no críquete; Alguns países africanos em provas de longas distância no atletismo; China no badminton.


Assim, fica claro que alguns atletas, times e nações se utilizam de suas Virtús para tentar controlar a Fortuna promovida pelo esporte a fim de manter uma hegemonia esportiva da mesma forma como é evidenciado em relação aos monarcas do século XVI, governantes e ditadores do século XX e líderes mundiais no século XXI de acordo com Maquiavel. 

19/05/2016

Os árbitros esportivos e as suas ações paternalistas

Na conjuntura esportiva, sempre teve a figura do dono ou dona da lei, do poder absoluto, da pessoa que tem a última palavra dentro dos campos, quadras, tatames, ringues e tablados. Faz parte do jogo. Necessitamos deles para que essa prática institucionalizada e regulamentada, que é o Esporte, seja legitimada, iniciada e encerrada.

Entretanto, seu papel nesse âmbito vai além de controlar e reger o jogo. Atenta-se também para a sua intervenção nos resultados esportivos e como tema desse texto, ressaltarei a atuação dos árbitros/árbitras esportivos como agentes do paternalismo, segundo a vertente filosófica do Utilitarismo (mais especificamente John Stuart Mill).

Simplifico o pensamento de Mill sobre o paternalismo. Para o mesmo, o ser racional é um indivíduo livre, detentor de sua própria autonomia individual para pensar e realizar ações que esteja no âmbito de sua competência. É nesse pensamento (o liberalismo) que Mill discorre que o indivíduo adquiri seu progresso social, assim como, adquiri sua liberdade, sua felicidade. Contudo, tais ações e comportamentos individuais não devem causar danos à terceiros ou possuir finalidades para seu próprio benefício. Para isso e apenas para isso (causar danos), John Stuart Mill argumenta que as instituições/Estados/legislações/Constituições nacionais ou no sentido atual, os tribunais internacionais, devem intervir nos comportamentos dos indivíduos afim de impedi-los de causarem danos. É essa específica intervenção nos comportamentos individuais que Mill define, caracteriza e legitima como Paternalismo ou a ação paternalista.

Agora, adentrando ao âmbito esportivo - e deixo claro que pode ser qualquer esporte - esse pensamento de Mill se faz muito presente e ás vezes necessário. Temos os atletas como indivíduos e os mesmos possuem autonomia individual para realizar qualquer ação ou comportamento dentro dos jogos para alcançarem seus objetivos, seus progressos, sua liberdade e principalmente sua felicidade. Até porque eles são livres e possuem uma racionalidade para isso. Só que quando essas ações causam danos à terceiros (as faltas/as violações) ou são utilizadas para o próprio benefício (contrariando o princípio do Fair Play esportivo) entra em ação a figura do árbitro/árbitra esportivo e sua intervenção em tais comportamentos, da mesma forma com que Mill pensa e legitima as intervenções das instituições, Estados e tantos outros órgãos coercitivos e interventores, ou seja, a ideia de Paternalismo.

Portanto, declaro que segundo os pensamentos Utilitaristas de John Stuart Mill, os árbitros (a) esportivos, ao interferirem nos comportamentos específicos dos atletas (faltas/violações e etc.) dentro do campo de jogo, são sim agentes do paternalismo. 

09/05/2016

Considerações sobre a dispensa da seleção brasileira pelos jogadores da NBA

De trinta anos para cá, vários aspectos econômicos-políticos e socioculturais desdobraram-se devido à uma nova ordem econômica dominante em gerir o mercado interno e externo. O nome disso é Globalização e suas consequências, sobretudo sociais, mudaram as formas de pensar, agir e sentir o mundo. Não obstante, os esportes se contextualizam nessa nova onda e passam a representar vivências/experiências obtidas no mundo globalizado.

Como parte desse mundo, um mundo de espetáculos e de entretenimento global, um esporte ou, por assim dizer, uma liga se destaca: a NBA. Abrindo seu portifólio, sua força, seu empoderamento e sua destreza, a NBA possui um alcance global concedendo direitos televisivos a meios de comunicação estrangeiros, patrocínios além da marca das franquias, e principalmente por permitir e contratar atletas de outras nacionalidades.

Assim, abre-se, para os atletas de basquete, o melhor mercado possível para a prática desse esporte em alto rendimento. E com a inserção de alguns atletas brasileiros na NBA (na temporada 2015/16 são dez ao todo) uma questão vem à tona: os constantes pedidos de dispensa dos jogadores brasileiros da NBA em relação a seleção brasileira. É fato que o contexto da globalização favorece/efervesce essa questão pela decadência dos sentimentos nacionais acometidos pela inserção de valores socioculturais globais. Porém é necessário distinguir a esfera privada/individual da esfera pública/coletiva para pensar ou tomar partido desse assunto, bem como, deixar de lado pensamentos, experiências e tradições de um contexto histórico diferente do que se vive atualmente.

Então, sobre a esfera privada/individual, ou seja, de quem pratica, constrói e investe nos atletas, são favoráveis os argumentos da dispensa, pois toda a carreira dos mesmos foram feitas com o mínimo suporte nacional, pensando na fraca política nacional de desenvolvimento esportivo de alto rendimento; a prática da NBA é diferente de todas as outras formas de jogar basquete no mundo, possuindo até mesmo regras distintas da FIBA e um número cavalar de jogos por temporadas, ocasionando um altíssimo esforço técnico e mental para se manter dentro desse ambiente; e porque os atletas respondem a NBA e suas franquias pois são deles que advém suas rendas e seus contratos e no mundo onde o dinheiro é o principal processo civilizador, ou seja, o principal motivo das escolhas individuais, torna-se difícil competir por uma seleção nacional onde o incentivo é a manutenção de um sentimento e de um orgulho e não necessariamente o lucro.

Por outro lado, o lado da esfera pública/coletiva, isto é, das instituições regulamentadoras do basquete, a CBB e o COB, e de nós torcedores, há um sentimento vazio quando deparamos nossa seleção sem os jogadores da NBA, já que lá é considerado o melhor basquete. Sente-se também um ar de desprezo e egoísmo por parte dos atletas em relação aos sentimentos nacionais/coletivos e por “enfraquecer” a seleção, bem como, a não obtenção de resultados expressivos se comparar ao passado do basquete brasileiro.

Portanto, a consequência disso tudo é que há, sem dúvidas, a obsolescência de sentimentos nacionais se basearmos no que estes sentimentos e suas instituições/seleções eram no passado. Contudo há de se considerar os propósitos e interesses, que hoje são muito mais particulares do que coletivos, de ambas as partes em relação a participação ou não na seleção brasileira de basquete.

Quem perde nessa disputa são os torcedores e principalmente o basquete nacional. E a solução para isso seria um maior diálogo entre a CBB e a NBA e/ou os atletas e a comissão técnica brasileira para que se evite julgamentos precipitados sobre as dispensas.