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26/03/2020

A Covid-19 e o futebol (paralisado).

Começo o texto justificando que a narrativa se descreverá especificamente sobre a paralisação do futebol pela pandemia da Covid-19 e não esportes em geral por conta de todo o significado e simbolismo sócio-histórico que esse esporte desfruta do cotidiano brasileiro. Peço que não constituam essa opinião como uma exclusão da importância de todos os outros esportes. Muito pelo contrário. Pode ser usada como narrativa para tantos contextos sociais como por exemplo, o críquete no sul da Ásia, a NBA para norte americanos e o Hockey para canadenses.

Se o futebol é o ópio do povo (como ressaltou Millôr Fernandes) o que significa a paralisação desse ópio em tempos de quarentena, pandemia, risco de contágio e mortes? Se Deus criou o mundo e as coisas em 6 dias e parou no sétimo dia para descansar e assistir futebol, o que ele vai fazer em seu tempo livre? Não há nenhuma racionalidade digna de criticar a paralisação do futebol mundial. Esse esporte tem a capacidade de levar a mobilização de massas a um nível comparado a forças religiosas e nesse tempo de combate a Covid-19, o único método eficaz para mitigar os casos de infectados ainda é o isolamento social e a não aglomeração de pessoas.

Entretanto, cabe levantar uma discussão: Sem futebol, o quê e quem preenche o vazio deixado? A pergunta parece ter uma resposta simples, porém bem rasa. Não faltam sugestões para o que fazer para quem pode estar em isolamento social (lembrando que essa opção é um privilégio) como, ler, assistir filmes e séries, meditar, estudar, usar das redes sociais como interação social e contar as latas da sua coleção (é o meu caso). Porém, a questão é mais profunda principalmente quando me refiro à um preenchimento coletivo, um sentimento de pertencimento social, exercício de cidadania (estou em dúvida se o futebol ainda pode causar isso) e de escapismo de uma realidade difícil e tensa (claro que aqui me refiro às classes sociais de mais baixas rendas). 

Sem ele nos estádios, nas TVs e nos bares (também fechados) a realidade dura do cotidiano parece pesar mais do que nunca. Sem ele, não há gritos de gol que por mais que possam parecer comemorações, revelam gritos de extravasamento e de angústias colocadas para fora da alma (e aqui me recordo de um dos fenômenos que Norbert Elias e Eric Dunning em "A busca da excitação" se referem ao gol no futebol como antecedente ao prazer). Não há uma alegria proporcionada pela vitória do seu time ou pela derrota do rival. Não há sequer uma tentativa de felicidade coletiva externada por gestos já que estão proibidos os abraços e os apertos de mão. Sem futebol, a vida e o cotidiano parecem ter um valor menor, vazio, sem muitos significados. 

Porém, é necessário ponderar duas narrativas: A primeira é e aqui faço de minhas palavras a de Jürguen Klopp (técnico do Liverpool) que o futebol é a coisa mais importante das menos importantes (para a maioria) e que a luta mundial, nesse momento, requer atenção e cuidados de todos (ou de quem quer ter esses cuidados).  

Os esforços para conter a Covid-19 requer alguns sacrifícios, mas o que me deixa mais em pânico não é ficar sem futebol, mas sim, não saber uma data certa para quando ele pode voltar. E isso é assustador. 

Obrigado por ler e é bom voltar a escrever. ;)

Dica de música para esse tema: Incubus "Wish you were here": https://www.youtube.com/watch?v=Yg0k8ylbZe0 


13/06/2019

Copa do Mundo 2019: Austrália x Brasil

- Confrontos: 3 partidas com 2 vitórias do Brasil e uma da Austrália (na Copa passada eliminou o Brasil nas oitavas). 

- Curiosidade: Marta fez seu décimo sexto gol e se iguala Klose da Alemanha como os maiores artilheiros de todas as Copas do Mundo. 

- Esquemas: Austrália: 4-2-3-1 sem a bola e 3-4-3 com a bola ///  Brasil: 4-1-4-1 sem a bola e 4-4-2 com a bola 

- Primeiro tempo: Eu não consegui assistir ao primeiro jogo do Brasil e achava que elas jogavam no 4-4-2 que o Vadão tinha escalado. Ao começar o jogo, o posicionamento do Brasil sem a bola é um 4-1-4-1 com a Formiga entre as linhas de 4 e a Cristiane como centroavante. Marta joga na última linha de 4 pelo meio e não pela ponta justamente para ter uma flutuação e melhorar a criação de jogadas. A proposta do jogo é muito clara: Austrália com posse de bola e propondo o jogo e o Brasil se fecha e joga no contra ataque fazendo o 4-4-2 com a bola, adiantando a Marta ao lado da Cristiane e recompondo a Formiga na segunda linha de 4. O 3-4-3 da Austrália é num formato que as duas ponteiras ficam bem abertas para rodar a bola pelos lados.   Em 15 minutos de jogo, a Austrália tem 66% de posse de bola com 76% de aproveitamento de passes e 2 finalizações fora do gol. O Brasil tem 35% de posse de bola com 78% de aproveitamento de passes e apenas 1 finalização no gol. 1x0 Brasil: Gol de pênalti após a recuperação no campo de defesa, troca de passes com velocidade até o pênalti ser feito. Essa é a proposta de jogo do Brasil: velocidade e verticalidade. As propostas de jogo não mudam após o gol: Austrália faz a posse e a marcação alta porém erra muitos passes privilegiando a proposta de jogo do Brasil. Em 30 minutos de primeiro tempo, são 53% de posse de bola (76% de aproveitamento de passe) e 2 finalizações fora do gol da Austrália. As brasileiras têm 47% de posse de bola (75% de aproveitamento) e 2 finalizações com duas no gol e 1 gol. O número quase igual de aproveitamento de passes indica a quantidade de erros de passes da Austrália. 2x0 Brasil: Golaço. Sem mais. Caneta da Tamires, passe em profundidade para Debinha e assistência para Cristiane (4 gols em dois jogos). Golaço porque um dibre quebrou a marcação da Austrália e a velocidade no ataque resultou em espaços conquistados até a bola entrar. 2x1 Austrália: Cruzamento, casquinha no primeiro pau e infiltração da Foord no segundo pau. O primeiro tempo termina com a posse de bola igual: 50% x 50% com a Austrália com um aproveitamento melhor de passes (76% x 74%). Mostra que após o segundo gol do Brasil, abdicou-se do jogo de transição que era bem executado e isso deu mais força ao jogo da Austrália. Em finalizações foram 6 para a Austrália com 3 no gol e 3 finalizações do Brasil com 3 no gol e dois gols. 



- Segundo tempo: Brasil volta sem Marta e Formiga mas mantendo o mesmo posicionamento sem bola e a mesma estratégia de jogo. Austrália também volta com a mesma proposta de jogo. 2x2: Numa finalização/cruzamento e erro da defesa do Brasil. Recuar o time me parecia não ser uma boa estratégia para segurar o resultado. Voltar a pressão na marcação e a tentativas de desarmes para conseguir contra ataques (igual o primeiro tempo) seria a melhor estratégia. Em 15 minutos do segundo tempo, a Austrália tem 51% de posse de bola (78% de aproveitamento), 8 finalizações, 4 no gol e dois gols. O Brasil tem 49% de posse de bola (75% de aproveitamento), 8 finalizações, 4 no gol e dois gols. O jogo é ótimo com os dois times tendo quase as mesmas estatísticas porém com duas formas de jogo diferentes. 3x2: outro gol de cruzamento em direção ao gol e desvio (agora contra). Infelizmente parece que a bola alta não é o forte da seleção brasileira (3 gols de bola aérea). Após o gol, a Austrália recua de forma compactada, porém o Brasil perde a intensidade do jogo. em 30 minutos do segundo tempo: Austrália tem 52% de posse de bola (79% de aproveitamento de passes), 9 finalizações com 5 no gol e 3 gols. O Brasil tem 48% de posse de bola (74% de aproveitamento de passes) com 9 finalizações, 4 no gol e 2 gols. Brasil perde por abdicar do seu estilo de jogo pós 2x0. Perde por não ter a intensidade necessária para segurar o resultado e depois empatar ou virar o resultado. Termina com menos posse (52% x 48%) e com mais finalização do que a Austrália (9 x 12). Brasil sentiu mais falta da Formiga do que da Marta. A defesa piorou no segundo tempo. 

Melhor da partida: Logarzo e Debinha. 

10/06/2019

Copa do Mundo 2019: Dia 4

Não consegui escrever sobre os jogos de sábado e domingo. Gostaria muito de ter assistido e analisado a estréia do Brasil mas isso não foi possível. Tivemos dois jogos nesse quarto dia de Copa e eis as análises:

ARGENTINA x JAPÃO

- Confrontos: Dois jogos e duas vitórias do Japão (atual vice campeã). 

-Curiosidade: Primeiro ponto conquistado pela Argentina em Copas do Mundo. 

- Esquemas: Argentina: 4-5-1 sem a bola e 4-3-2-1 com a bola (adiantando as duas ponteiras na linha da frente) ///Japão: 4-4-2 com (dando amplitude as duas ponteiras) e sem a bola

- Primeiro tempo: Em 20 minutos de primeiro tempo, o Japão propõe o jogo, troca passes, busca opções pelos lados, pelos meios e não há pressa em concluir as jogadas. Já Argentina vem com um esquema forte de marcação com uma linha de 4 defensiva e uma de 5 no meio campo com uma atacante acionada em jogadas de bolas longas e pivô. São 58% de posse de bola para o Japão com uma finalização no gol e 42% de posse de bola para Argentina e nenhuma finalização. Reclamar que o jogo é ruim por ter duas finalizações erradas em 34 minutos de jogo é fazer vista grossa para as propostas de jogo de ambas as equipes. Quase que usando um ferrolho invertido, a Argentina tranca o Japão que só roda a bola e pouco converte a posse de bola (que é de 61%) em finalizações. O primeiro tempo termina da mesma forma: sem espaços para criar (no caso do Japão) e sem um jogo de transição forte (no caso da Argentina) o 0x0 é o único resultado possível. 



- Segundo tempo: A melhor forma de furar uma retranca é tentar abrir a defesa com amplitude e profundidade. É o que o Japão começou a fazer no segundo tempo. Jogavam num 4-4-2 com a bola mas agora jogam num 4-2-4 bem e muito bem aberto. Isso fez com que o seu ataque e sua posse de bola empurrasse a defesa da Argentina para trás e consequentemente mais espaços para criar (em 15 minutos criaram o mesmo número de finalizações de todo o primeiro tempo: agora são 4 com 1 no gol e 63% de posse de bola com 88% de aproveitamento dos passes). Já a Argentina, continua recuada, sem a opção do jogo de transição e só rebatendo bolas (ainda não finalizou nenhuma bola no gol e possui 37% de posse de bola e apenas 67% de aproveitamento dos passes). Após 65 minutos de jogo, finalmente a Argentina finalizou a primeira vez (mesmo que tenha sido um chute bloqueado).As Sul-Americanas aumentam sua posse de bola (38% a 62%), passam a tentar ficar mais com a bola e tentar criar mais finalizações (agora são 2 com uma no gol contra 5 do Japão com 1 no gol). Por fim, a retranca funciona e o jogo termina em 0x0. Japão não conseguiu achar espaços e no final a Argentina melhora a posse e sua criação. Ela teve 39% de posse de bola com um aproveitamento de 65% dos passes, 5 finalizações com duas no gol e 77 rebatidas. O Japão teve 61% de posse com 87% de aproveitamento de passes, 8 finalizações com 3 chutes a gol. 

- Melhor da partida: Estefania Banini. 

CANADÁ x CAMARÕES

- Confrontos: Será o primeiro entre as duas seleções.

- Esquemas: Canadá: 4-4-2 sem a bola e 4-3-3 com a bola /// Camarões: 5-4-1 sem a bola e 4-3-3 com a bola. 

- Primeiro tempo: As propostas de jogo são iguais ao do primeiro jogo: Camarões joga na defesa e o Canadá propondo o jogo com a posse de bola, verticalidade e realizando a marcação alta e o perde pressiona. Diferentemente do Japão, o Canadá consegue converter sua posse de bola em chances criadas e finalizações enquanto Camarões trabalha melhor os contra ataques e o jogo de transição do que a Argentina. Em 20 minutos, Canadá tem 69% de posse de bola, 71% de aproveitamento de passes, 4 finalizações 1 no gol. Camarões tem 31% de posse de bola, 66% de aproveitamento de passes, 3 finalizações e 1 no gol. Apesar do jogo coletivo do Canadá ser melhor, a imposição física e a velocidade das Camaronesas equiparam o jogo no final do primeiro tempo. A verticalidade de Camarões é impressionante (4 finalizações com apenas 31% de posse de bola). 1x0 Canadá: cobrança de escanteio após um período de pressão no ataque das canadenses e gol (jogada ensaiada). 8 finalizações para o Canadá com 2 no gol e 1 gol (69% de posse de bola). 



- Segundo tempo: As duas seleções voltam com a mesma formação. Até porque as propostas de jogo foram bem executadas com a exceção do gol sofrido por Camarões. O jogo é o mesmo: Canadá com a posse e o jogo coletivo muito forte e Camarões recuado e jogando na velocidade do contra ataque quando tem a bola. Em 15 minutos de segundo tempo, o Canadá tem 10 finalizações com 3 no gol e 68% de posse de bola e Camarões ainda possui 4 finalizações com 32% de posse de bola. As formas de jogo não mudam muito apesar das substituições. Camarões tenta ficar mais com a bola e jogar na sua velocidade. Porém, sem efeitos maiores muito por conta do controle do jogo feito pelas canadenses. Camarões sobe o % de sua posse (36%) mas finalizou uma vez mais apenas (5). Já o Canadá aumentou sua criação apesar da posse ter caído (foram 12 mas ainda com apenas 3 no alvo). A partida termina com Canadá finalizando mais que o triplo do que Camarões (16x5). 

- Melhor da partida: Buchanan